terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Eta cavalinho besta sô

ÊTA CAVALIN BESTA SÔ!!!


Eu tenho um cavalinho, desses assim: comum, pequeno, russo, meio queimadinho, quase branco, mansinnho mansin que vive lá em casa na roça. Ele é meio bobo: não sai da porta. Não sei se é por que vive sozinho e gosta da companhia e do barulho da casa, ou é por que gosta mesmo de servir.
Os meninos usam e abusam dele. Puseram até um nome nele: ferradura (está sempre atrás da porta).

Apanhei ele há uns dez anos atrás do véi Luça: um velho cheirador de pó que morava lá pras bandas da ponte-natureza. Dei um bezerro de ano nele. Foi até o Marquinho meu cunhado que fez o catira. O negócio foi até bom: na “orelha”, ninguém tomou manta. Achei que tinha ficado no prejuízo por que o danado do cavalo era muito pequeno e mirradin. Mas o garrotinho também tinha acabado de desmamar e não era lá essas coisas. Depois o ferradura foi encorpando e aprendendo a lidar com gado, ficou bom de carroça e com essa vantagem: com tanto pasto pra ele andar e se esconder, preferia ficar ali no pátio. Costume dele. Só saía pra ir ao vau da aguada beber uns goles e dar uma refrescada, pastava um pouquinho por ali e logo voltava pra porta.
Um dia desses sonhei que tinha chegado numa cidade grande montado nele. Fui na casa de um amigo que hoje mora em Porto Alegre, mas não reconheci que cidade era aquela. Era uma cidade bem grande que também não era São Paulo.
Só sei que cheguei assim: chapéu na cabeça e calçado com um par de esporas.
Parei na esquina d`um bequinho e desarriei o ferradura. Tinha uma estaca fincada na beira da calçada e ali mesmo pendurei a traia: arreio, bacheiro, rédea e as esporas.
Assim pro fundo do beco era uma vilinha com casa dos dois lados e no meio uma ruela com calçamento de pedra, aquelas pretas bem aparadinhas nos cantos.E tinha bastante touceira de grama brotando ali por entre as pedras. Avistei até uma égua ruzia muito bonita pastando mais no fundo do beco.
Soltei o ferradura e atravessei a rua. A casa era a da esquina, a primeira da entrada da rua. Um casa amarela com alpendre grande e muita gente lá dentro. Ouvi até a voz do Márcio, meu companheiro de música, lá no fundo da cozinha. Ria alto com gosto. Daquele jeito dele. Meu amigo não tava, mas tinha muitas irmãs e amigas no alpendre conversando. Umas bonitas, outras mais rulicinhas. Fui logo me apresentando, assim meio sem jeito fui salvando todo mundo.
Vi logo que uma galegona, a mais bonita, deu de puxar conversa comigo. Queria saber quem eu era; de onde conhecia seu irmão! E eu fui contando que o irmão dela tinha morado junto comigo e minha turma de músicos numa república lá em São Paulo e que depois foi embora pra Portugal e eu não o vi mais.Mas falei que queria muito encontrar com ele e assim o papo foi ficando melhor.
Uma vez, depois de ter tomado um cafezin, acendi um paiero e saí pra ver o ferradura.
Tava lá no fundo amadrinhando com a égua. Dei umas tragadas, joguei o cigarro fora e voltei pro Alpendre. Até me chamaram para entrar, mas dali eu não passava. Conversa boa com a moçada. Nisso papo vai, papo vem, o meu amigo não chega, proseei mais com a galegona até que resolvi dar mais uma olhada no cavalo. Queria arriar, já deixar pronto pra ir embora. Já não o avistei no fundo da rua. Fiquei imaginando: deve ter ido beber água e daqui a pouco ta de volta. Mas ele não sabe onde é a aguada e como é que vai achar água no meio desse monte de concreto. Além do mais a égua foi com ele. Fiquei preocupado. Saí pra dar uma volta atrás dele. Passei por muitas pontes sem água embaixo e nada. Ele não iria achar aguada ali. Pensei: e se tiver ido embora? Será que foi levar a égua pra dar água lá em casa no vau da aguada? Eta cavalinho besta sô!!!
Voltei desacossuado, pois nem a traia que tinha deixado dependurada estava mais lá.
Entrei no alpendre de novo pra me despedir do povo e dar um jeito de ir embora.
Na hora da despedida, de acordo com o costume da cidade, as moças me davam o rosto prum beijim . Eu que não sô bobo nem nada, gostei daquilo. Quando chegou a vez da galegona, eu já empolgado, resolvi colocar o braço nas costas dela. Quando mencionei, ela deu uma viradinha e minha mão deu uma derriçada assim no seio dela sô. Assim por cima. Mas êta trem bão! Deu pra sentir aquele trem carnudo na ponta dos dedos.Bem que eu tinha arreparado que ela não usava sutian. Cheguei arrepiar. Fiquei sem saber onde punha a cara. Mas foi sem querer. Juro que foi. O pior é que ela gostou sô...foi me acompanhando até a porta e quando desci a calçada ela desceu também..Ficou num degrau mais baixo e deu de ficar da minha altura assim. Aí eu criei coragem e falei pra ela: já que meu cavalin foi beber água e não voltou, ce não quer ir comigo pra roça não?
O pior é que ela topou sô...quando tava saindo à pé, com a galegona, de braços dados.. acordei...
Êta cavalin besta sô!!!!

Um comentário:

DARIOXV disse...

muito bom o texto